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Terra para a vida
Dom
Erwin Kräutler
“Vós que esmagais o
indigente e quereis eliminar os pobres da terra...” Am 8,4
Um
dos comentários que em toda a minha vida mais me chocou e por
isso ficou indelevelmente gravado em minha memória se refere
aos povos indígenas do Xingu. Havia chegado há pouco tempo em
Belém, cheio de entusiasmo e muito esperançoso quanto ao meu
futuro. Não tive nenhuma dúvida que, mesmo com apenas 26 anos,
fizera um passo decisivo em minha vida. Ordenei-me padre e
queria ser “missionário“ com toda conotação que essa palavra
ainda carregou nos idos de 1965.
Aprendi o
português brasileiro com muito empenho e carinho e logo que
dispus do vocabulário indispensável para entabular uma
conversação dirigi-me a pessoas queridas e atenciosas que em
Belém do Pará me cercavam nas primeiras semanas. Perguntei a
respeito dos índios.
Dois tios,
irmãos da minha mãe, chegavam a essas plagas em 1934. O tio
Padre Eurico muito escrevia sobre a sorte dos indígenas no
Xingu e todo o seu empenho em favor deles. Suas palestras,
recheadas de slides tirados nas aldeias tornaram-se
inesquecíveis, quando de sua primeira visita à terra natal
depois de 14 anos de Amazônia. Escrevia um livro intitulado
“Sepultada nas selvas do Xingu“ que contava a história da
menina Carminha raptada pelos Kayapó e posteriormente
libertada pelo índio Patoit. Tornou-se um “best-seller“ na
década de 50. Assim minhas perguntas foram absolutamente
compreensíveis.
Bem eu
sabia que era impossível dedicar-me logo mais à causa
indígena. Teria que inculturar-me primeiro na nova pátria,
aprender a língua portuguesa, assimilar usos e costumes da
Amazônia, seguir as tradições queridas, os ritos e a
religiosidade do povo que me acolheu e que doravante seria meu
povo. Mas no horizonte de meu “projeto de vida“ já figuravam
os índios, cuja causa queria assumir. Não foi
mero romantismo de missionário novo, inexperiente, sonhador.
Foi algo que pertencia ao meu imaginário desde a infância,
desde que ouvi pela primeira vez o meu tio imitar as danças
rituais dos Kayapó e emitir os sons que acompanham os
movimentos rítmicos. Patoit, Aibí, Kanhok são nomes de
caciques que já constavam de meu mundo de infância. De Patoit
e sua mulher existe até hoje uma quadro na casa da minha
família. Falava-se do casal como se os dois fossem parentes,
morando somente à uma certa distância, “nas selvas do Xingu“.
E agora
simplesmente queria saber dos amigos se conheciam os Kayapó.
Para minha surpresa, só ouviram falar desse povo pelas
histórias que o próprio Padre Eurico, meu tio, contava. O
Xingu mesmo era para eles apenas mais um rio, bem distante de
Belém, habitado por “índios ferozes e selvagens“.
Aconselharam-me não gastar tempo pensando em índio, pois o
Brasil não era um país indígena e, além do mais, os índios que
ainda existiam estavam todos em fase de extinção. Para um
missionário novo seria melhor – assim me recomendaram –
investir a energia em catequizar e ajudar o povo nas cidades,
vilas e povoados do interior e visitar as pobres famílias
ribeirinhas que precisavam de Padre para batizar os seus
filhos e rezar com elas, além de fazer coletas em favor delas.
Era preciso comprar mosquiteiros para se defenderem dos
carapanã responsáveis pelos surtos de malária que infestaram a
região. Esse povo pobre trabalhava nos seringais e castanhais,
na pesca e na agricultura rudimentar, mas o que conseguia com
o suor derramado não dava para sustentar-se. Já naquele tempo
perguntei-me, por que essa gente estava na miséria, já que
trabalhava tanto.
Finalmente, o comentário a respeito dos índios que me abalou
até o âmago foi esse: “São uns caboclos traiçoeiros que roubam
e matam cristãos. Se Deus quiser, daqui a vinte anos não
existe mais nenhum deles!“ Que ducha de água gelada em pleno
verão tropical! Ainda bem, que não acreditei nesse vaticínio
fatídico de apenas vinte anos de sobrevivência para os povos
indígenas.
Mas me
perguntei: por que estão falando dos índios desse modo? Nas
veias da maioria de meus amigos – mesmo que se recusem de
admiti-lo – não corre o sangue de ancestrais indígenas? Por
que agora querem acelerar a morte destes povos? Por que querem
esmagá-los, eliminá-los da terra? A experiência daquele tempo
foi apenas um prenúncio de futuras controvérsias com políticos
e contendas com empresários e comerciantes a respeito dos
índios, de lutas e defesas em torno da causa indígena que
assumimos que não nos trouxeram apenas vitórias, mas também
tremendas hostilidades e agressões.
Em agosto
de 1987, enquanto a Assembléia Nacional Constituinte estava em
curso, fomos acusados de todo tipo de crime de lesa-pátria por
defendermos a dignidade dos povos indígenas e pleitearmos a
inscrição de seus direitos na Carta Magna do Brasil. Durante
cinco dias o jornal de maior circulação no país publicou
matérias caluniosas e difamações explícitas, documentos
falsificados ou inexistentes contra o Conselho Indigenista
Missionário – CIMI – cujo presidente eu era já naquele tempo,
querendo com essa iniciativa colocar em total descrédito toda
a nossa luta por parâmetros mais favoráveis aos povos
indígenas na Constituição Federal. Queriam, a todo custo,
enfraquecer a presença do CIMI nas articulações da Assembléia
Nacional Constituinte. A criminalização do CIMI teve por
consequênca a instauração de uma Comissão Parlamentar Mista de
Inquérito que ouviu os representantes do jornal que comandou a
campanha, e examinou os documentos que fundamentavam as
denúncias. Também eu aguardava o chamado para depor diante da
Comissão. Estava plenamente seguro de que iria desmascarar a
tramóia, pois estava munido de um dossiê completo que
comprovava como infundadas e caluniosas todas as acusações.
Mas, em vez de viajar a Brasília, fui vítima de um misterioso
acidente automobilístico, até hoje não esclarecido, que ceifou
a vida de um jovem Padre e me confinou por seis semanas numa
enfermaria do Hospital Guadalupe em Belém. Quebrei literalmente a cara, mas o Dr. Cláudio Brito, cirurgião
paraense muito experiente e competente uniu por fios metálicos
meus ossos faciais e um famoso cirurgião dentista, desta vez
austríaco, implantou na minha boca a terceira dentadura que,
assim espero, seja a última. Depois de ter alta do hospital, a
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito não achou mais
necessário chamar-me para depor. Mesmo assim, o parecer final
do relator da comissão concluiu pela total falsidade dos
documentos mencionados pelo jornal denunciante, e propôs a
remessa do material e do relatório ao Ministério Público,
dadas as evidências de falsidade ideológica. Mas nada mais
aconteceu! Mesmo com muitas dores sofridas para completar “o
que falta às tribulações de Cristo“ (Col 1,24) e lágrimas
vertidas pela morte de um Padre entusiasmado pela Amazônia,
festejamos juntos com os povos indígenas a vitória de serem
inscritos os seus direitos na Constituição Federal.
A pergunta
crucial que se levanta diante da causa indígena, há muito
tempo exige uma resposta: Por que essas posições
anti-indigenas, essas ondas de hostilidade contra os
descendentes dos primeiros habitantes do Brasil, que sempre de
novo se levantam e conspurcam inclusive a imagem do Brasil no
concerto internacional das nações? Qual é a razão profunda ou
primordial que motiva as agressões abertas e veladas contra
esses povos? A resposta é curta e simples! O problema não
consiste no fato de terem uma língua materna diferente. Não
são suas tradições culturais, seus ritos e mitos, suas danças
e festas que atrapalham. O problema consiste na terra que
ocupam, a terra que poderosas forças neste País continuamente
negam a eles. Quando meus amigos de Belém nos idos de 1965
prenunciaram a morte dos índios do Xingu, não se preocupavam
com os Kayapó como povo diferenciado da sociedade envolvente,
mas como povo que defende seu hábitat, que se levanta contra
intrusos e guerreia contra aqueles que invadem suas aldeias.
Os índios têm que ser eliminados para que se tenha acesso às
suas terras e às riquezas naturais nelas existentes, tanto no
solo como no subsolo. Essa á a questão!
A Amazônia
é na realidade de hoje uma região habitada por “toda raça,
língua, povo e nação“ (Ap 5,9). Creio que não haja no mundo
inteiro algo semelhante em termos de encontro de raças e
culturas. Mas, o que geralmente é esquecido, na Amazônia há
também diversas línguas. Só no Xingu, existem todos os troncos
linguísticos da América. Não se trata de dialetos como muitas
vezes se afirma no afã de descaracterizar um idioma
reduzindo-o a uma gíria ou um regionalismo idiomático. São
línguas com toda uma esmerada gramática e vocabulário
expressivo, mesmo que não tão volumoso como o da “última flor
do Lácio“.
Na
histórica Marcha dos Povos Indígenas, realizada em 2000 no
contexto dos 500 anos
em Porto Seguro,
BA, os Índios da Amazônia carregaram uma faixa com os dizeres:
“Reduzidos sim, vencidos nunca!”. De fato, há milhares de
anos, a Amazônia é seu lar, sua pátria, o chão de seus mitos e
ritos, a ambiente próprio para suas danças e crenças, a terra
em que sepultaram seus ancestrais. A idade cientificamente
provada das pinturas rupestres na Caverna da Pedra Pintada em
Monte Alegre (PA), mostrando mulheres e crianças saindo para
colher castanha-do-pará e homens no meio da mata úmida caçando
anta, derruba definitivamente a tese da ocupação do continente
há somente 12.000 anos. Esses “paleoíndios“ viviam na Amazônia
já há muito mais tempo. Através dos milênios se adaptaram às
florestas tropicais criando uma cultura superior à de outros
pré-históricos de sua época. Os
índios de hoje são os descendentes e remanescentes de outrora
vigorosos povos que através dos séculos foram dizimados em
perseguições implacáveis, guerras de extermínio ou por doenças
criminosamente introduzidas. Foram escravizados e deportados
ou então submetidos a programas de “integração“ compulsória à
sociedade que orgulhosamente se autodenomina de “nacional“.
A chegada
das naus de Pedro Álvares Cabral mudou a história deste país
continental e também da Amazônia. O Monte Pascal, na
realidade, nada tem de Páscoa – Ressurreição para os povos que
habitavam até então este mundo de selvas e águas, de praias
douradas e paisagens exóticas, ainda do jeito como Deus as
criou. Uma arrasadora invasão que posteriormente em todos os
livros de história, desde o ensino fundamental, seria chamada
e enaltecida como “descobrimento“, deu início ao Calvário dos
Povos autóctones destas plagas, à Sexta-feira Santa da Paixão
e Morte que perdura até os dias de hoje. Para esses povos
ainda não alvoreceu o dia da Páscoa, em que a vida vence a
morte, a paz, como “fruto de justiça“ (Is 32, 17), triunfa
sobre a guerra de extermínio e da desapropriação forçada.
Chegaram os colonizadores do velho continente. Para eles sim,
este continente foi uma descoberta! Vieram para que? Queriam o
que? Ávidos de terras e das riquezas do solo e subsolo,
conquistaram o espaço a ferro e fogo. “Fidalgos“ em missões
oficiais e simultaneamente em busca de
fortunas fabulosas aportaram ao lado de delinquentes
e degredados, expulsos de Portugal e até marinheiros
desertores. Outras nações européias, especialmente os
holandeses, estavam igualmente interessadas na Amazônia. A
ocupação portuguesa consolidou-se definitivamente em 1616 com
a fundação do Forte do Presépio na baía do Guajará, que deu
origem à cidade de Santa Maria de Belém do Grão-Pará. E o
resultado da investida européia na Amazônia deixou profundas
marcas. Padre Antônio Vieira lamenta já no ano 1662 em seu
famoso sermão da Epifania diante da coorte de Portugal:
“Querem que tragamos os gentios à fé, e que os entreguemos à
cobiça; querem que tragamos as ovelhas ao rebanho, e que as
entreguemos a Herodes. (...) (Hoje) estão destruídas e
desabitadas todas aquelas terras em tão poucos anos; e de
tantas e tão numerosas povoações, de que só ficaram os nomes,
não se vêem hoje mais que ruínas e cemitérios“.
Os
indígenas não estavam acostumados a trabalhos forçados e
morriam extenuados. Para compensar esta mão de obra perdida,
outro continente foi assaltado. Milhares e milhares de homens
e mulheres foram trazidos da África como escravos. Muitos nem
chegaram vivos neste lado do Atlântico. Os que chegaram à
Amazônia tornaram-se em sua grande maioria escravos de
engenhos. Muitos morreram de banzo.Todos choraram
inconsoláveis a pátria perdida. Ainda hoje cantam e dançam
emocionados os cantares e ritmos que a mãe África lhes legou.
As festas dos santos padroeiros na Amazônia têm
características negras misturadas com indígenas. As novenas e
ladainhas cantadas e batucadas e noites dançadas ao som de
tambores e tamborins, de curimbó e maracá, de reco-reco e
xeque-xeque espelham a alma africana nos amazônidas.
No século
XIX a extração do látex das seringueiras da Floresta Amazônica
adquiriu grande importância econômica e atraiu dezenas de
milhares de migrantes do nordeste brasileiro e despertou o
interesse de grandes companhias extrativistas européias e
norte-americanas. O látex foi elevado à categoria de
matéria-prima industrial a partir de 1823, com a descoberta da
impermeabilização por MacIntosh, nesse mesmo ano, e da
vulcanização, por Goodyear, em 1839. Até 1850, a exploração da
borracha estava restrita à região de Belém e às ilhas. Os
primeiros rios a serem utilizados para o transporte comercial
foram o Xingu e o Tapajós, depois o Amazonas até atingir o
Solimões, o Purus, o Alto Madeira e o Juruá. Nessa época,
iniciou-se também a migração de turcos, sírios, libaneses e
judeus que praticavam o comércio baseado na troca de
mercadorias. O monopólio brasileiro de produção e os altos
preços da borracha no mercado mundial enriqueceram durante
algum tempo os donos de seringais e fizeram de Manaus e Belém
“capitais de fausto e dissipação“. Nas primeiras décadas do
século XX, com a concorrência da borracha asiática, a borracha
amazônica perdeu mercado e a economia regional entrou em
rápido declínio, deixando milhares de famílias de seringueiros
na miséria.
A partir
de 1929 os nipônicos começam a fixar-se em vários pontos da
região amazônica. Tomé-Açu, no Pará, tornou-se o assentamento
mais importante, ficando famosa pela produção de pimenta.
Durante a
II Guerra Mundial, quando os japoneses cortaram o fornecimento
de borracha para os Estados Unidos, milhares de brasileiros
foram enviados para os seringais da Amazônia, em nome da luta
contra o nazismo, dando origem à “Batalha da Borracha“. Os
nordestinos recrutados para trabalhar nos seringais foram
chamados de “soldados da borracha“, mas não receberam nem
soldo nem medalhas. O saldo final foi terrível: Dos quase 60
mil soldados da borracha, cerca da metade desapareceu na selva
amazônica. Só à guisa de comparação: dos 20 mil brasileiros
combatentes na Itália morreram 454
Frequentemente
os seringueiros entraram em confronto com os índios que
rejeitaram sua presença. A reação indígena provocou a vingança
dos barões da borracha que mandaram massacrar os índios.
Aldeias inteiras foram sacrificadas e os rios se tingiram da
cor do sangue.
A partir
da década de 70 a Amazônia tornou-se mais uma vez palco de
grandes migrações. A construção de imensas estradas que cortam
as selvas até então intocadas provocou uma corrida de milhares
de famílias do nordeste à Amazônia. Sobrevoando o nordeste, o
presidente General Medici teria exclamado, olhando para o
norte, “Terra sem homens“ e acrescentado “para homens sem
terra“, mirando das alturas os nordestinos duramente
castigados pela seca. A reportagem da Folha de São Paulo em 10
de outubro de 1970, com o título “Medici implanta na selva
marco inicial da Transamazônica“, é emblemática para aquela
época. Diz a reportagem: “O general Medici presidiu ontem no
município de Altamira, no Estado do Pará, a solenidade de
implantação, em plena selva, do marco inicial da construção da
grande rodovia Transamazônica, que cortará toda a Amazônia, no
sentido Leste-Oeste, numa extensão de mais de 3.000
quilômetros e interligará esta região com o Nordeste. O presidente
emocionado assistiu à derrubada de uma arvore de
50 metros de altura, no traçado da futura rodovia, e descerrou a placa
comemorativa (...) incrustada no tronco de uma grande
castanheira com cerca de dois metros de diâmetro, na qual
estava inscrito: "Nestas margens do Xingu, em plena selva
amazônica, o Sr. Presidente da República dá inicio à
construção da Transamazônica, numa arrancada histórica para a
conquista deste gigantesco mundo verde".
A
destruição da selva milenar estava programada! Por incrível
que pareça, derrubar e queimar a floresta tornou-se sinônimo
de desenvolvimento e progresso.
E lá vão
os nordestinos para o norte, fugindo da seca, atraídos por
promessas governamentais. Mas poucos, apenas 15%, permanecem.
O outros desanimaram e abandonaram e voltaram num pau-de-arara
ao nordeste da caatinga e das secas periódicas, ou então
refugiaram-se nas cidades que da noite para o dia incharam,
duplicando e triplicando o número de seus habitantes
A chamada
segunda colonização, também incentivada pelo Governo, trouxe
famílias do sudeste, do centro e do sul do Brasil a esta nova
fronteira. Vieram em busca de terras para a agricultura ou
criação de gado.
Muitos dos
pioneiros, sujeitos às mais diversas doenças, à malária, ao
esgotamento físico, sem assistência médica, sem estradas para
o escoamento do produto, sem escola, desanimaram e venderam a
preço ínfimo seu lote para fazendeiros, concentrando assim
terras já tituladas nas mãos de uns poucos que compraram
tantos lotes quantos apareciam à venda, degradando os pequenos
lavradores à condição de peões, de agregados ou fazendo-os
trabalhar “à meia” nos lotes dos quais até pouco tempo eram
donos com título definitivo. Os lotes familiares de 100
hectares paulatinamente desapareceram, cedendo lugar para grandes fazendas de
milhares de hectares. O dinheiro auferido pela venda do lote
deu para sustentar a família só por pouco tempo.
Repentinamente sem eira nem beira, tentaram a sorte nos
garimpos. Se lá não acharam ouro, a malária encontraram com
certeza. Em consequência de doenças, muitos morreram “de morte
morrida“, outros tantos, pela violência que reina nos
garimpos, “de morte matada“. Não existem estatísticas.
Décadas
passaram, desde então. Os que permaneceram na Transamazônica e
se tornaram detentores de maiores extensões de terra, em parte
até conseguiram bons resultados. Pela primeira vez em
significativas manchas de terra roxa, no atual município de
Medicilândia, PA, vastos canaviais substituíram a floresta
tropical. No entanto, o episódio do Pacal (1983) entrou na
história como a grande rebelião dos canavieiros contra os maus
tratos, a falta de pagamento da safra entregue e a quebra da
Usina Abraham Lincoln. Os canaviais desapareceram. Os colonos,
pequenos e médios fazendeiros, começaram a investir na
pecuária ou então, o que trouxe bem melhores resultados, no
cacau. Criou-se uma classe média rural mas sempre sujeita à
oscilação dos preços no mercado internacional.
Nos
últimos decênios surgiu uma nova categoria de conquistadores
da Amazônia. São os famigerados grileiros que usurpam terras
da União e através de manobras escusas mandam confeccionar
títulos definitivos de propriedade artificialmente
envelhecidos! Dispõem como nos velhos tempos do cangaço de
forças para-militares para defender os seus interesses. Usam
de suas influências político-financeiras para manter-se em
imensas áreas. Querem apropriar-se também de terras
pertencentes às famílias de agricultores, destinadas a
projetos de desenvolvimento sustentável. Não respeitam nada e
ninguém e avançam sem escrúpulos. As famílias dos pequenos
agricultores sempre estiveram na mira desses
pseudo-proprietários. Nas décadas passadas centenas de homens
e mulheres perderam a vida de modo violento sem nenhuma
investigação, sem nenhuma apuração do crime. São homens e
mulheres enterrados como indigentes. Há cemitérios na Amazônia
com inúmeras cruzes sem nomes, há cemitérios clandestinos sem
cruzes! A mata cresce por cima das sepulturas e esconde o
sangue derramado. A Justiça, se não é conivente, é ausente!
Completam-se hoje sete anos desde a morte de Dema, Ademir
Alfeu Federicci. Como dirigente de comunidade, sindicalista,
vereador sempre defendeu os direitos do pequeno agricultor e
lutou por dias melhores para o homem e a mulher do campo.
Denunciou a exploração ilegal de madeira na área indígena
Arara, próxima ao km 75 da Rodovia Transamazônica. No dia 23
de agosto de 2001 Dema, escreveu uma carta em apoio ao
trabalho de investigação da Polícia Federal em relação aos
grileiros da SUDAM. Dois dias depois, na madrugada do dia 25
de agosto de 2001, foi brutalmente executado na sua casa em
Altamira. Caiu aos pés de Maria da Penha, sua mulher. Deu apenas para
balbuciar ainda: ”Maria, tome conta de nossos filhos!”
A
realidade é que a Reforma Agrária não avançou e a concentração
da propriedade fundiária está aumentando. Os planos econômicos
voltados para o campo brasileiro não são direcionados para
atender as expectativas para um novo modelo agrícola. A
produção familiar e cooperativada consegue apenas incentivos
irrisórios, enquanto a produção das grandes empresas
estrangeiras e nacionais ligadas ao capital financeiro
receberam do Banco do Brasil só no ano passado R$ 7 bilhões. O
atual governo prioriza o modelo agroexportador e discrimina a
agricultura camponesa, responsável pela produção de alimentos
em nosso país. As terras improdutivas que deveriam ser usadas
para a Reforma Agrária, estão sendo destinadas a empresas
estrangeiras, para a produção de eucalipto, soja, gado e
agrocombustíveis, em vez de alimentos.
Paradigmático para toda essa conjuntura nacional é o caso
Raposa Serra do Sul. Aí, os dois projetos de país nitidamente
se confrontam.
No dia 27
de agosto, o Supremo Tribunal Federal (STF) irá finalmente
julgar o caso da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, área há
milênios habitada pelos povos Macuxi, Wapichana, Taurepang,
Ingaricó e Patamona. Todos sabemos o quanto custou, de
mobilização, de trabalho, de luta, mesmo de vidas de
lideranças indígenas, ao longo dos últimos 34 anos, para se
conseguir a demarcação daquele território, em 2002, pelo
governo Fernando Henrique, e a sua homologação em 2005, pelo
governo Lula.
Todos
sabemos também como os grandes interesses econômicos estão se
movendo para anular essa homologação e como os seus aliados
vêm atuando para que não só a homologação seja desfeita, mas
para que esta área como qualquer outro território não seja
reconhecido mais como terra indígena. Os aliados dos invasores
atuam tanto no STF como no Congresso Nacional, em setores do
Executivo e nos grandes meios de comunicação, mais uma vez
espalhando mentiras e preconceitos com relação aos povos
indígenas do Brasil.
De um lado
estão os povos indígenas da Raposa Serra do Sol e seus
aliados: os movimentos sociais, do campo e da cidade, como a
Via Campesina e o Grito dos Excluídos, a Igreja Católica e
suas pastorais sociais, a Diocese de Roraima, o CIMI (Conselho
Indigenista Missionário) e as congregações que atuam na
Amazônia junto aos povos indígenas, as entidades de defesa dos
Direitos Humanos, todos agindo em defesa dos direitos
indígenas conforme reconhecidos pela Constituição de 1988.
Do outro
lado batalham contra os direitos indígenas inscritos na
Constituição Federal os invasores, arrozeiros do agro-negócio,
as grandes empresas de mineração, os políticos e os militares
que agem a seu serviço. Todos eles atuam para anular os
direitos constitucionais dos povos indígenas. Para conseguir o
seu intento não agem só no Congresso, mas junto a sociedade
nacional, buscando desconstituir os direitos indígenas assim
como os direitos dos quilombolas, ribeirinhos e demais
comunidades tradicionais, da Amazônia como do país todo.
Afirmei
que Raposa Serra do Sol é um caso paradigmático. Realmente,
dependendo de como os ministros do Supremo Tribunal Federal
votarem, diferentes perspectivas estarão traçadas para os
povos do campo no Brasil. Se votarem favoráveis aos povos
indígenas, seus direitos, seus territórios, seu futuro como
povos estarão mais uma vez assegurados. Se os ministros
votarem contra os povos indígenas, escancaram-se as portas
para o avanço dos grandes interesses econômicos sobre os
demais territórios indígenas, como sobre os territórios de
todas as comunidades tradicionais, incluindo também as áreas
de preservação ambiental.
Não nos
iludamos! O que está em jogo neste caso de Raposa Serra do Sol
é o fato da Constituição Brasileira garantir a existência de
terras fora do mercado capitalista. E é exatamente contra este
fato que o agro-negócio e seus aliados se insurgem. Sua
palavra de ordem é: “Nenhuma terra fora do mercado!”
Nosso lema
afirma o contrário: “Toda a terra a favor da Vida e da Paz
para os povos indígenas e para os povos do Campo!”
São dois
projetos que estão em confronto:um a favor da terra para a
Vida,o outro a favor da terra para o negócio.
Que a
Vida seja vitoriosa!
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